Terapia Familiar
Conflitos familiares: quando procurar terapia de família?
Nem todo conflito familiar significa que uma família está adoecida. Mas, quando as mesmas dificuldades se repetem e conversar já não produz aproximação, pode ser importante olhar para o que está acontecendo entre todos.
Por Adriana Ogawa, CRP 18/915 · · 8 min de leitura
Toda família atravessa mudanças, divergências e momentos de tensão.
Ao longo da vida, filhos crescem, casais reorganizam suas funções, pessoas entram e saem do sistema familiar, novas gerações chegam, os pais envelhecem, responsabilidades mudam e decisões importantes precisam ser tomadas.
Em muitos desses momentos, a própria família encontra maneiras de se reorganizar. Em outros, aquilo que inicialmente parecia uma dificuldade pontual começa a se repetir e passa a afetar os vínculos.
É justamente aí que a Terapia Familiar pode ajudar.
O conflito nem sempre é o problema
Discordar faz parte de qualquer relação próxima.
Pais e filhos podem pensar de maneiras diferentes. Irmãos podem ter expectativas distintas. Um casal pode divergir sobre a educação dos filhos. Uma família pode não concordar sobre dinheiro, cuidados com os pais, negócios ou decisões relacionadas ao futuro.
Por isso, o objetivo da terapia não é construir uma família em que ninguém discorde.
O que merece atenção é quando a maneira de lidar com as diferenças começa a produzir sofrimento, afastamento ou rupturas recorrentes.
Às vezes, o assunto muda, mas a dinâmica permanece a mesma: alguém cobra, outro se afasta; um tenta controlar, outro reage; alguns membros se unem enquanto outro fica isolado; antigas mágoas reaparecem em qualquer nova discussão.
Na perspectiva sistêmica, além de perguntar “quem está com o problema?”, procuramos compreender “o que está acontecendo nas relações e como cada pessoa participa dessa dinâmica?”
Essa mudança de olhar pode fazer uma diferença importante.
Existem momentos em que a família fica mais vulnerável aos conflitos
Algumas fases da vida exigem uma reorganização maior do sistema familiar.
A chegada de um filho, a adolescência, a saída dos filhos de casa, casamentos, separações, recasamentos, mudanças de cidade, adoecimento, envelhecimento dos pais e perdas são exemplos de acontecimentos que modificam lugares, funções e expectativas dentro da família.
Também existem situações em que decisões concretas se misturam à história afetiva daquela família.
Isso pode acontecer em empresas familiares e processos sucessórios, na divisão de responsabilidades entre gerações, na administração do patrimônio, em partilhas de bens e heranças ou quando irmãos precisam decidir conjuntamente sobre o cuidado de pais idosos.
Nesses momentos, muitas vezes a discussão parece ser apenas sobre dinheiro, patrimônio ou uma decisão prática. Mas junto dela podem aparecer histórias antigas, sentimentos de reconhecimento ou injustiça, rivalidades, lealdades familiares e expectativas construídas durante muitos anos.
Nem sempre é possível separar completamente aquilo que é uma decisão objetiva daquilo que aquela decisão representa emocionalmente para cada membro da família.
Sinais de que pode ser importante procurar ajuda
Não é necessário esperar que os vínculos estejam profundamente desgastados para buscar Terapia Familiar.
Alguns sinais podem indicar que a família está encontrando dificuldade para reorganizar sozinha determinada situação:
- As mesmas discussões acontecem repetidamente, sem que se chegue a novas possibilidades.
- Conversas importantes passaram a ser evitadas porque quase sempre terminam em conflito.
- Existe afastamento significativo entre alguns membros.
- Pais e filhos têm dificuldade para estabelecer limites, autonomia ou comunicação.
- Uma mudança importante na vida da família gerou sofrimento ou desorganização.
- Antigas mágoas continuam interferindo nas relações atuais.
- Decisões sobre cuidado, patrimônio, empresa familiar, sucessão ou herança passaram a comprometer os vínculos.
- Um problema identificado em um dos membros parece mobilizar toda a família.
A presença de um desses sinais não significa, por si só, que aquela família precise de terapia. É o contexto, a intensidade do sofrimento e o impacto sobre as relações que precisam ser considerados.
Na família, um problema raramente pertence apenas a uma pessoa
É comum uma família procurar ajuda inicialmente preocupada com uma pessoa: “meu filho está com problema”, “minha mãe não aceita”, “meu marido não conversa”, “minha irmã é muito difícil”.
A Terapia Sistêmica amplia essa compreensão.
Isso não significa negar as dificuldades individuais nem responsabilizar a família pelo sofrimento de alguém. Significa compreender que cada pessoa vive dentro de uma rede de relações e que aquilo que um membro sente ou faz também afeta os demais, assim como é afetado por eles.
Em vez de buscar culpados, o trabalho procura compreender padrões de interação, posições ocupadas por cada pessoa, histórias familiares, fronteiras, alianças, expectativas e formas de comunicação que foram sendo construídas ao longo do tempo.
Muitas vezes, uma forma de se relacionar que funcionou em determinado momento da história já não responde às necessidades atuais daquela família.
O que acontece na Terapia Familiar?
A Terapia Familiar oferece um espaço de escuta e compreensão das relações.
Nas sessões, buscamos identificar os ciclos que se repetem, compreender como cada pessoa percebe a situação e criar condições para que experiências que antes apareciam apenas por meio de acusações, silêncios ou afastamentos possam ser compreendidas de outra maneira.
O objetivo não é decidir quem está certo ou errado.
Também não é convencer todos a pensarem da mesma forma.
O trabalho terapêutico busca ampliar a compreensão sobre aquilo que está acontecendo entre as pessoas, favorecer formas mais funcionais de comunicação e ajudar a família a construir novas possibilidades para lidar com suas diferenças e com os desafios que atravessa.
Dependendo da situação, podem participar diferentes membros da família ao longo do processo. Essa configuração é avaliada de acordo com a demanda e com os objetivos terapêuticos.
Procurar terapia não significa que a família fracassou
Famílias mudam porque a vida muda.
E algumas transições exigem que formas antigas de se relacionar sejam revistas para que novos lugares possam ser construídos.
Buscar Terapia Familiar não significa eliminar conflitos nem construir relações perfeitas. Significa criar um espaço para compreender aquilo que a família já não está conseguindo resolver apenas repetindo as mesmas conversas.
Às vezes, o primeiro movimento não é encontrar imediatamente uma solução.
É conseguir olhar para o problema de outro lugar.
Porque, quando muda a maneira como uma família compreende o que está acontecendo entre seus membros, novas formas de se relacionar também podem se tornar possíveis.
Sobre a autora
Adriana Amélia Trindade dos Santos Ogawa
Psicóloga | CRP 18/915
Especialista em Terapia Sistêmica Individual, de Casal e Família, com mais de 20 anos de atuação clínica. Atendimento a adolescentes, adultos, casais e famílias, presencialmente em Rondonópolis/MT e on-line no Brasil e no exterior.
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