Burnout
Burnout não se resolve apenas com férias
O descanso pode aliviar a exaustão. Mas, quando as condições que sustentam o esgotamento permanecem, voltar à mesma rotina pode significar reencontrar o mesmo sofrimento.
Por Adriana Ogawa, CRP 18/915 · · 5 min de leitura
Cansaço e burnout não são sinônimos.
O cansaço costuma estar relacionado a períodos de maior esforço e tende a melhorar com repouso e recuperação. Já o burnout está associado ao estresse crônico relacionado ao trabalho, especialmente quando as demandas vivenciadas ultrapassam, de forma persistente, os recursos disponíveis para lidar com elas.
O burnout é compreendido a partir de três dimensões principais: exaustão, maior distanciamento mental ou negativismo em relação ao trabalho e redução da percepção de eficácia profissional.
Por isso, não se trata simplesmente de “precisar descansar mais”. É necessário compreender o contexto em que esse esgotamento foi sendo construído.
Por que as férias podem não ser suficientes?
Férias, pausas e períodos de descanso são importantes. O problema é esperar que o descanso, sozinho, modifique uma situação que foi construída ao longo do tempo.
Sobrecarga, jornadas extensas, baixa autonomia, conflitos no ambiente profissional, ausência de reconhecimento, dificuldade em estabelecer limites e incompatibilidades entre as exigências do trabalho e os recursos disponíveis podem participar desse processo.
Há também uma dimensão pessoal e relacional que merece ser compreendida. Algumas pessoas desenvolveram, ao longo da própria história, padrões de elevada autoexigência, dificuldade de dizer “não”, necessidade constante de corresponder às expectativas ou uma forte associação entre valor pessoal e produtividade.
Isso não significa responsabilizar a pessoa pelo burnout. O contexto de trabalho precisa ser considerado. Significa compreender como fatores individuais, relacionais e organizacionais podem interagir na manutenção do sofrimento.
Quando a competência começa a cobrar um preço
Profissionais comprometidos e competentes podem responder à sobrecarga tentando entregar ainda mais.
Assumem novas responsabilidades, aumentam o ritmo, diminuem as pausas e adiam os próprios limites.
Por algum tempo, isso pode funcionar.
Até que aquilo que antes era vivido como dedicação começa a produzir exaustão.
Perceber esse movimento é importante porque o cuidado não envolve apenas recuperar energia, mas também reavaliar a maneira como a pessoa tem se relacionado com o trabalho, com as expectativas e consigo mesma.
O que a psicoterapia pode trabalhar?
A psicoterapia pode contribuir para compreender diferentes aspectos envolvidos nesse processo, como:
- Padrões de autoexigência e as histórias relacionadas a eles.
- Dificuldade de reconhecer e estabelecer limites.
- Relação entre identidade, desempenho e produtividade.
- Formas de lidar com expectativas, frustrações e responsabilidades.
- Recursos de regulação emocional e autocuidado.
- Possibilidades concretas de mudança dentro do contexto profissional.
- Quando pertinente, reflexões sobre carreira e reorientação profissional.
Um olhar que considera também o trabalho
Minha experiência anterior na Psicologia Organizacional e a formação em Gestão de Pessoas também atravessam meu olhar clínico para essas situações.
Compreender o funcionamento das organizações, as relações de trabalho e as exigências profissionais ajuda a diferenciar aquilo que pode ser trabalhado individualmente daquilo que pertence ao contexto no qual a pessoa está inserida.
Nem todo sofrimento relacionado ao trabalho se resolve aprendendo a “lidar melhor” com ele. Às vezes, o contexto também precisa mudar.
Sobre a autora
Adriana Amélia Trindade dos Santos Ogawa
Psicóloga | CRP 18/915
Especialista em Terapia Sistêmica Individual, de Casal e Família, com mais de 20 anos de atuação clínica. Atendimento a adolescentes, adultos, casais e famílias, presencialmente em Rondonópolis/MT e on-line no Brasil e no exterior.
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